O euro – ficar ou sair?

O seguinte artigo apareceu como comentário a um post do blog Momentos Económicos.

Qualquer análise contrafactual (i.e. o que teria acontecido a Portugal caso não tivessemos aderido ao euro em 1999), para ser completa, teria de reconhecer que a adopção da Moeda Única pode não ter sido o evento mais determinante para a evolução das economias na década 00. A chamada ‘decada perdida’ em termos de (ausência de) crescimento económico é comum não só a Portugal mas também, por exemplo, aos Estados Unidos. Por isso, julgo que é preciso não sobrevalorizar a importância do euro na vida económica de um país.

Mas isso não quer dizer que ter ou não ter euro é irrelevante (ou neutral, como diria um economista). Como refere Paul De Grauwe num artigo recente, não ter moeda própria pode deixar um país mais vulnerável ao ataque dos mercados financeiros. Ele dá o exemplo da Espanha e do Reino Unido que têm fundamentais semelhantes, mas que estão a ser tratados de forma diferente pelos mercados. A razão? O Reino Unido tem a Libra, o que quer dizer que a sua dívida está denominada em Libras, uma moeda sobre a qual tem controlo. Por isso pode, em teoria, reduzir o valor do que deve enfraquecendo a sua moeda.

E quanto ao uso de moeda própria como instrumento de competitividade? Este parece ser o argumento de eleição do que defendem que Portugal cometeu um enorme erro ao aderir ao Euro. Contudo, como sabemos, este instrumento nunca foi eficaz num horizonte de médio-longo prazo pois traduzia-se sempre num problema de inflação demasiada elevada.

Em conclusão, volto às ideias do meu primeiro parágrafo. Julgo que não devemos procurar no euro (ou no escudo) a solução mágica dos nossos problemas. Uma desvalorização competitiva é sempre uma tentativa de enganar alguém … invariavelmente enganamo-nos a nós próprios. Aqui vale a pena relembrar o que aprendemos nas primeiras páginas dos manuais de economia: é preciso garantir a boa afectação dos recursos disponíveis. Pensemos antes em formas de produzir mais com os mesmos recursos, em formas de reorganizar, em formas de reduzir bottlenecks, etc. Enquanto não o fizermos continuamos a olhar para a cauda e não para o cão. E isso só nos trará mais dores de cabeça.

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Sobre Pedro G. Rodrigues

Professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, doutorado em economia pela Universidade Nova de Lisboa. Email: pgr.economist@gmail.com
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