Três previsões para 2012-2013

Por mais arbitrário que seja, o fim de um ano é um momento dado a previsões para o ano seguinte. Bem sei que este é um blog mais dedicado a factos e menos a opiniões, e por isso poderá parecer estranho um post com três previsões para o Mundo até final de 2013. Vivemos um período de extraordinária incerteza e, só isso, justifica alargar o período de projecção. Registo aqui as minhas três previsões apenas a título de curiosidade. Não são certezas incontornáveis mas, na minha opinião, são muito mais prováveis do que muitos pensam.

Primeira previsão. O Euro sobreviverá, mas sem a Alemanha. Ao contrário do que muitos estariam à espera – a saída do Euro por parte de um dos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia ou Espanha) – prevejo que seja a Alemanha a abandonar a moeda única. Fá-lo-á provavelmente depois da queda da Sra. Merkel. Fá-lo-á depois de uma análise custo-benefício em que conclui que os benefícios já foram obtidos (se a Alemanha não tivesse sido um dos países fundadores do Euro, com a crise financeira internacional que vivemos, o Marco teria valorizado com um movimento de capitais a procurar abrigo [flight to quality] e a Alemanha não teria beneficiado de um crescimento tão robusto das suas exportações) e os custos agora é que começam a aparecer. Os custos são de vária ordem: a) financeiros (na alimentação do fundo de estabilização), b) económicos (a inexistência de uma solução cria incerteza que lesa a Alemanha), e c) de credibilidade (pela utilização por parte de outros países do seu bom nome nas praças financeiras). O trade-off que agora existe é entre perda de competitividade (por via cambial) e perda de recursos financeiros (na alimentação de um fundo cujos recursos vão ser directa ou indirectamente canalizados para outros países da União). Assim que a segunda perda for maior que a primeira, a Alemanha preparar-se-á para sair do Euro. Então e os contratos que estão denominados em Euros? Então e os bancos alemães que têm créditos a receber em Euros? Se a Alemanha adoptar o Marco eles vão perder dinheiro. Verdade. Mas o que eu acho que a Alemanha poderá estar a fazer neste momento é endividar-se em Euros num montante que, feita a transição para o Marco, permitirá, após numa consolidação de contas, uma posição mais perto do equilíbrio. Isto quer dizer que a Alemanha vai ter de gastar algum dinheiro para sair desta embrulhada, mas preferirá ajudar bancos e fundos de pensões alemães do que financiar os excessos dos países devedores. Julgo que a re-adopção do Marco pela Alemanha não afectará muito a relação entre o Dólar e o Euro, mas resultará quase de certeza num aumento das taxas de juro na Área do Euro porque a Alemanha já lá não está. Quando (já digo quando e não se …) a Alemanha sair do Euro, provavelmente seguir-se-ão países como os Países Baixos e a Áustria, que poderão querer um peg ao Marco. É uma novela a acompanhar nos próximos tempos.

Segunda previsão. A economia da China vai desacelerar muito significativamente. Esta será talvez a maior surpresa nos próximos dois anos, simplesmente porque todos dão por garantido que o crescimento económico chinês é saudável e robusto e por isso sustentável (capaz de se aguentar indefinidamente). Pensam assim talvez por duas razões: a) a China aguentou-se razoavelmente durante a crise de 2008/9 (fê-lo através de uma enorme expansão do crédito) e b) a China é a China caramba!

Aqui simplesmente farei eco da análise de James Chanos, um investidor que previu a queda do gigante empresarial Enron. Segundo Chanos, o motor do crescimento na China não é nem as exportações (que continuam a ser uma pequena fracção do PIB) nem o consumo privado (que é muito menos expressivo que no Ocidente, porque os salários continuam baixos), mas sim o investimento. Até aí tudo bem, não? Qual o problema? Investimento é a compra de bens de capital, i.e. bens como máquinas e equipamentos que servem para produzir outros bens. O problema é que, segundo Chanos, grande parte desse investimento é construção residencial e comercial que está por habitar. É um enorme parque imobiliário que se degrada e que apenas serviu para manter as elevadas taxas de crescimento económico no país. O vídeo australiano que se segue revela bem a dimensão desta bolha imobiliária, um excesso que Chanos diagnostica como ‘Dubai X 1000’.

 

 

Se esta bolha rebentar, não só terá um impacto em todos os países que dependem da China como cliente dos seus produtos (Japão, Austrália, Tailândia, …), mas também na economia global pelos inúmeros linkages que a China já tem.

Terceira previsão. Até ao final de 2013 será quase evidente que o próximo Primeiro-Ministro de Portugal será do sexo feminino. Esta é uma tendência em curso que eu entendo à luz de vários desenvolvimentos: a) o eleitorado (em Portugal e noutros países também) está cada vez mais farto dos políticos actuais e sabe que, para haver renovação, é preciso sangue novo, b) as mulheres são o género dominante entre o eleitorado, algo que se tornará ainda mais pronunciado com o envelhecimento da população (elas sobrevivem mais tempo que eles), e c) o sectarismo ideológico/partidário que divide muitos eleitores será menos importante entre as mulheres portuguesas a partir do momento que surgir um ponto focal – uma mulher com quem se identifiquem, determinada, tecnicamente competente e sem amarras ao boys’ club.

Esta última previsão é claramente numa área que está muito para além da minha área de competência – a economia – mas, mesmo assim, dado que ninguém fala desta possibilidade, avanço eu com ela, dado que a acho bastante provável.

Palavras finais. E no meio de tudo isto, se estas três previsões se concretizarem será bom ou mau para Portugal e os Portugueses? Boa pergunta! Como sempre acontece, os optimistas verão 1) uma possibilidade de mantermos o Euro (provavelmente liderado pela França – uma ambição antiga) e ganhar competitividade em relação à Alemanha, 2) o facto da China já não ser uma ameaça tão assustadora, e 3) um tempo de esperança. Por outro lado, os mais pessimistas interpretarão os mesmos eventos, se estes se concretizarem, como 1) o desmembramento da Europa e o aumento das taxas de juro (isto a prazo até pode revelar-se uma boa coisa!), 2) o facto das economias emergentes já não poderem ser uma locomotiva do crescimento económico mundial, e 3) a prova da incompetência masculina na gestão da República.

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Sobre Pedro G. Rodrigues

Professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, doutorado em economia pela Universidade Nova de Lisboa. Email: pgr.economist@gmail.com
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4 respostas a Três previsões para 2012-2013

  1. Previsões arrojadas 😀
    Mas antes previsões para o mundo no final do ano do que previsões para o final do mundo, que parecem estar mais em moda, sobretudo se falarmos do mundo do euro.

  2. Pingback: 减缓 | 10envolver – Economia para todos

  3. Pingback: Os Alemães já discutem o Ausgang | 10envolver – Economia para todos

  4. anabrav diz:

    Muito estimulante colega! e ousado, como diz o Prof P. Barros
    Previsões são apenas isso, apesar da boa fundamentação tecnica que apresenta em 1 e 2). Seguindo o seu raciocinio, se Alemanha (20% do PIB UE) sai, dada a continuação da crise, o € tenderia a desvalorizar em relação ao marco – nesse caso os ativos Alemaes em euro dentro e fora do pais ( como em Portugal) desvalorizariam. Temos ainda o impacto politico do cenário 1 e a dúvida: as economias q ficariam no euro conseguiriam manter a moeda única sem o “chicote” e as “cenouras” (stick and carrot) alemãos?

    2. qto á China penso que pode ter grande probabilidade o seu cenário! Esperemos que não…do pv da economia global
    3. qto à superioridade das mulheres na política!!! – vai ficar popular entre nós, mulheres…Lol mas, creio que a incompetência não foi só masculina, só que eles são em maior nº. Da literatura, parece que as diferenças de liderança são mais atribuídas ao temperamento, perfil de competências face a situações, lealdade, apoios, etc, do q ao género em si. As mulheres politicas vêm dos partidos – pelos exemplos que temos em Portugal, a competência, dedicação e lealdade são fatores que têm determinado os apoios dos seus mentores nos diferentes quadrantes partidários (mas não são qualidades femininas) – Ferreira Leite, Mª Jesus Belém, a ex-ministra da cultura (PS), Paula T da Cruz, a min Finanças, Ass. Cristas. Está a ver alguma destas como PM?… A MFL só teve 28% dos votos a 1ª vez que se candidatou – o mais baixo que o PSD alguma vez teve..

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