Um raio de sol em Portugal

Esta semana foram divulgados os dados do Inquérito (trimestral) aos Bancos sobre o Mercado de Crédito. Este é um exercício coordenado pelo BCE e feito em toda a área do euro – podem ver aqui o link.

Os dados não são fáceis de coligir (por este motivo este post levou-me horas a preparar em vez de apenas uns minutos) mas são muito informativos. Porquê? Simplesmente a) porque os resultados para o PIB (o indicador por excelência usado para medir a actividade económica) apenas ficam disponíveis com um desfazamento de alguns meses, e b) há um dado deste Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito que parece ter as características de um indicador coincidente. O que é que isso quer dizer? Quer dizer que segue muito de perto o andamento do PIB e está disponível muito mais rapidamente. E por que é que isso é importante? É, porque as autoridades orçamentais e monetárias (entenda-se Governos nacionais e bancos centrais) assim podem intervir quase em tempo real sempre que necessário. Se esperarem pela altura em que o número do PIB saiu, já pode ser tarde demais. É preferível conduzir olhando pelo pára-brisas do que pelo espelho retrovisor.

Então que indicador é esse? É o resultado de uma pergunta sobre a ‘procura de empréstimos a empresas’ que é feita aos bancos. A pergunta é: “Nos últimos três meses, quais as alterações verificadas na procura de empréstimos ou linhas de crédito a empresas oferecidos pelo seu banco, depois de descontadas as flutuações sazonais normais?”. Como é um inquérito, é feita esta pergunta a um conjunto de bancos que operam no mercado de crédito. A partir dos resultados, calcula-se uma percentagem líquida que é a diferença entre a soma das percentagens cuja resposta foi “aumentou consideravelmente” ou “aumentou ligeiramente” e a soma das percentagens cuja resposta foi “diminuiu consideravelmente” ou “diminuiu ligeiramente”.

Vejamos como este indicador (que eu designo por DLE em representação do inglês: demand for loans by enterprises) compara com a taxa de crescimento (homólogo) do PIB real, medido em cada trimestre. Lembre-se que uma taxa de crescimento homóloga compara, por exemplo, o terceiro trimestre de 2011 (2011:Q3) com o terceiro trimestre de 2010 (2010:Q3). Os dados sobre o crescimento do PIB são da OCDE (ver aqui – B1_GE GYSA).

Há cinco figuras e seguem por esta ordem: Área do Euro, Portugal, Itália, Espanha, e por fim a Alemanha. Há dados trimestrais desde 2003. Teria sido interessante incluir países como a França e a Grécia, mas infelizmente os seus dados não estão disponíveis para o público.

Em relação à Área do Euro, parece que é mesmo um indicador coincidente da actividade económica, dado que capta bem as viragens. Se assim for, a forte contracção na procura de empréstimos por empresas ocorrida entre Janeiro e Abril 2012 é um péssimo sinal para o PIB.

Em relação a Portugal, parece que temos um raio de sol com a recuperação pelo segundo trimestre consecutivo na procura de empréstimos por empresas. É verdade que acontece quando a Área do Euro e o resto da Europa estão a ter maiores dificuldades, mas é um raio de sol a valorizar. 🙂

Em relação à Itália, a queda na procura de empréstimos por empresas é preocupante …

Em relação à Espanha, a queda é menos pronunciada.

Finalmente, em relação à Alemanha, é curioso verificar como até 2006 a procura de empréstimos por empresas manteve-se negativo (coincidindo com um desempenho fraco em termos de crescimento do PIB real) e depois tornou-se mais robusto. Nos últimos trimestres a procura de empréstimos por empresas tem moderado, mas repare que o DLE está acima de -10, por isso não parece haver grande preocupação aqui.

Termino este longo post, relembrando que na análise de um mercado – e o mercado de crédito não é excepção – temos de analisar o que se passa do lado da oferta e também o que se passa do lado da procura. Nos últimos tempos, com as sucessivas políticas de crédito mais fácil (entenda-se os sucessivos rounds de QE ou Quantitative Easing e LTRO) apenas se tem dado atenção à oferta. Entender o efeito da intermediação financeira sobre a actividade económica exige saber o que se passa do lado da procura também.

Os dados não são muito fáceis de coligir (como disse) – alguns bancos centrais teimam em disponibilizar apenas em CSV em vez de em XLS – mas este é um indicador que seguirei e actualizarei de trimestre em trimestre, à medida que estiverem disponíveis novos números.

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Sobre Pedro G. Rodrigues

Professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, doutorado em economia pela Universidade Nova de Lisboa. Email: pgr.economist@gmail.com
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4 respostas a Um raio de sol em Portugal

  1. Salomé Pinto diz:

    Interessante, mas poderemos ter estas ilações para o caso português? Perante o gráfico publicado, verifica-se que vários períodos regista-se um aumento da procura de crédito pelas empresas mas o PIB decresce… como explicar este fenómeno?

    • Cara Salomé, Agradeço-lhe o comentário. Julgo que podemos tirar ilações para o caso português, mas temos de nos lembrar que a economia é uma ciência social, pelo que apanham-se as tendências. Difícil que um indicador acerte sempre como previsor do PIB do próximo trimestre, porque há tantas variáveis em jogo, como a conjuntura externa, por exemplo. Por que razão estamos em contraciclo com os outros países retratados? Há três hipóteses: A) Ainda vamos levar com a onda que está a impactar os outros neste momento, ou B) As coisas estão de facto a melhorar por cá, ou C) Uma combinação de A e de B. 🙂

      • Salomé Pinto diz:

        Obrigada Pedro 🙂 Seria bom que o futuro fosse mais risonho para Portugal, mas não estou muito otimista, tendo em conta as políticas de austeridade em curso, a ver vamos. E parabéns pelo blog!! 🙂

  2. Ainda chove e troveja mas o sol teima em raiar. 🙂 Obrigado eu! Como economista e professor de uma universidade pública penso que devo participar. Esta foi a forma que encontrei. Agradeço divulgação!

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