A racionalidade no futebol

ronaldo

No estudo de como a economia funciona, os economistas assumem muitas vezes que todos os agentes económicos (famílias, empresas e Estado ou os seus representantes humanos) são racionais. O que é que isso implica? Implica que os incentivos económicos (não são só os incentivos financeiros) importam nas principais decisões e comportamentos, e que as pessoas não cometem os mesmos erros de forma sistemática porque recolhem a informação necessária para decidir da forma que lhes dará os melhores resultados.

Será que os futebolistas também são agentes racionais? Mesmo quando jogam pela selecção? Certamente que colocam de parte a razão e agem apenas com a emoção … afinal estão a representar Portugal! Não?

Pois. O último jogo de preparação – Portugal 1 : Turquia 3 – que terminou há momentos pode ser a evidência que procurava que, afinal, mesmo jogando pela selecção, todos os jogadores são racionais.

Do ponto de vista dos incentivos (uma palavra central no pensamento de qualquer economista, mesmo quando vê um jogo de futebol), eu pergunto-me que incentivos para sobressair tem um jogador português que já jogue num clube europeu do maior prestígio? No tempo em que este tinha de impressionar algum olheiro do futebol internacional, aí sim esforçava-se até para “comer a relva”.

Claro que os melhores jogadores do mundo têm de fazer um pouco mais, não porque sintam as cores da selecção mais do que os outros, mas simplesmente porque há uma reputação a defender, e dessa reputação obtêm benefícios tangív€i$.

Se assim for (e perdoem-me o cinismo os/as leitores/as que levam o futebol e ou a selecção mais a peito), o racional é que regressem o mais depressa possível para que, tendo cumprido a obrigação de representar a selecção, possam gozar o maior número de dias de férias a que têm direito.

Que outros factores poderão fazer com que o desfecho não seja simplesmente este que descrevi?

Portugal é um país com elevada taxa de desemprego e que está a tentar encetar várias reformas estruturais, enquanto é obrigado a tornar as suas finanças públicas mais sustentáveis. Neste contexto, daria muito jeito a qualquer governo uma boa distracção – “circo”, como diriam os Romanos. Por isso, nada melhor que o futebol para distrair a população. Assim sendo, pode ser que haja um incentivo acrescido para chegarem mais longe, mas sinceramente duvido dado o estado das nossas finanças públicas.

E a nível europeu? Levando o meu cinismo ainda mais longe, diria que a forma de maximizar o efeito circo, dada a crise de dívida soberana na Europa, seria que a Alemanha fosse eliminada nas meias finais (também não convém eliminá-los muito cedo porque a organização e as empresas patrocinadoras têm de rentabilizar a publicidade que é um custo afundado nessa altura) e que depois fosse a Espanha a ganhar o europeu.

“Mas, Pedro, as pessoas não são racionais. Seria uma chatice que alguém como tu pudesse antecipar o que vai acontecer apenas com a frieza da lógica …”

Pois, devem ter razão. 🙂 O futebol é um espectáculo, uma emoção, uma diversão …

(PS. De acordo com o dicionário Priberam, o sentido militar da palavra “diversão” é Manobra falsa para desviar a atenção do inimigo do ponto que se quer atacar.)

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Sobre Pedro G. Rodrigues

Professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, doutorado em economia pela Universidade Nova de Lisboa. Email: pgr.economist@gmail.com
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