Uma venda a descoberto

Hoje falamos de uma operação financeira a que os especuladores recorrem e que lhes tem dado uma má reputação. Refiro-me à venda a descoberto ou “short selling“.

Quem não se lembra, durante o pico da crise asiática em 1997, dos governos da Malásia e da Tailândia, por exemplo, responsabilizarem os “gnomos de Zurique” (i.e. os vis especuladores) pelas dificuldades por que passavam?

Este tipo de comportamento tende a ser repetido, como o foi recentemente durante a crise financeira quando, dos dois lados do Atlântico, à vez, os governos responsabilizavam e depois proibiam a venda a descoberto das acções de vários bancos. É uma táctica que os políticos adoptam sempre que querem desviar o foco da atenção.

Mas então o que é o short selling? Vender a descoberto é simplesmente a operação inversa de comprar uma acção. Como se faz? Pede-se uma acção emprestada e devolve-se a mesma depois de algum tempo. Se, no entretanto, o preço da acção caiu (é nisto que o especulador aposta), há uma mais valia para o short-seller. A venda a descoberto pode ser feita com acções (em cujo caso o especulador aposta na queda do preço de cada acção) ou com obrigações empresariais ou do Tesouro (em cujo caso, aposta na redução do seu preço ou no aumento da taxa de juro implícita, porque estas são vendidas abaixo do par). Assim, a pressão que países como Portugal, Grécia, Itália e Espanha têm sentido com aumentos persistentes das taxas de juro no mercado secundário onde as suas obrigações do Tesouro são transaccionadas, mais não é do que a aposta por parte dos especuladores de que o valor de cada obrigação continuará a cair porque a oferta será maior que a procura. Porquê? A aumentar a oferta estará a necessidade crescente de se financiarem para colmatar défices orçamentais crescentes, e do lado da procura estará (pensam eles) uma crescente relutância em comprar estas obrigações dado um risco acrescido em termos de default ou reestruturação, etc.

Muito mais interessante do que as mais ou menos valias que são produzidas por este tipo de operação bolsista é analisar se os short sellers desempenham algum papel útil para a sociedade ou se são (como alguns os apontam) meros parasitas.

Como contributos positivos, eles:

a) Aumentam a liquidez do mercado, sendo que isto quer dizer que quanto mais vendedores e compradores existirem num mercado, mais fácil será a qualquer uma das partes desfazer-se da sua posição (liquidá-la);

b) Aumentam a eficiência nesse mercado, dado que aceleram o ajustamento de preços e estreitam o spread (a diferença entre o ‘ask’ e o ‘bid’, i.e. entre o preço a que os proprietários estão dispostos a vender e o preço a que os compradores estão dispostos a comprar; e ainda

c) São agentes purgadores de fraudes financeiras, má gestão e outras ineficiências, como foi o caso do James Chanos que vendeu a descoberto acções da Enron, meses antes de se ter descoberto que a sua contabilidade era fraudulenta. Os bancos de investimentos muitas vezes não têm qualquer incentivo a proteger os interesses do aforrador, dado que a empresa que emite acções é sua cliente.

Em conclusão, quem vende a descoberto (e hoje em dia qualquer um o pode fazer) não contribui para afundar a empresa ou o país – prova disso é que os fluxos de caixa da empresa não são alterados por estas operações e os short sellers têm que pagar dividendos. A mais valia que potencialmente existe é o incentivo que existe no sistema financeiro para que este, depois de fazer o seu trabalho de casa, evidencie situações de fraude ou má gestão de recursos escassos. Esse princípio é válido tanto para empresas como para as finanças públicas de países. A melhor defesa contra os especuladores é mesmo uma situação financeira desafogada. Quem não tem défices orçamentais estruturais não tem sarilhos!

Sobre a ética e o papel dos short sellers, ver este link.
Para mais informação sobre o papel dos mesmos nos mercados financeiros, cliqui aqui.

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Sobre Pedro G. Rodrigues

Professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, doutorado em economia pela Universidade Nova de Lisboa. Email: pgr.economist@gmail.com
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