Sem margem para complacências

Blue metal compass

Banco de Portugal disponibilizou esta quarta-feira o Relatório Anual do Conselho de Administração.

Do que já li (ainda não li tudo!), há algumas ideias incontornáveis que valem a pena reter. Muitos dirão que não são novidades, mas são de tal forma importantes que nunca é demais sublinhá-las.

1) No final de 2013, a dívida pública ascendia a 129% do PIB, e a dívida externa a 119% do PIB. Este é um contexto arriscado, onde não pode existir margem para complacência na prossecução do processo de ajustamento (ver pp. 100). O que é que isso quer dizer? Quer dizer que cada um não deve consumir mais do que o valor do que produz. Isto aplica-se a todos os agentes económicos: famílias, empresas e sector público. Há um problema? Não é atirando dinheiro sobre ele que este se vai resolver. O plano de ajustamento económico e financeiro pode ter terminado, mas os credores internacionais continuam atentos – tanto mais porque vamos continuar a estar dependentes de novo financiamento para revolver o stock em dívida.

2) No próximo ano teremos eleições legislativas, e o eleitoralismo traduz-se em irresponsabilidade orçamental, que se paga bem cara, porque depois o ajustamento que é necessário fazer é ainda maior.

3) O fraco desempenho da economia portuguesa data bem antes da crise de 2008 e tem várias raízes: a) uma proporção decrescente da população que está empregada [Portugal foi um dos países da OCDE onde a taxa de emprego mais caiu], b) os que estão empregados trabalham demasiadas horas (por isso a sua produtividade é baixa … e os salários também), e c) cada empregado trabalha com pouco capital, i.e. o valor das máquinas e dos equipamentos com que trabalha fica muito aquém do que os seus colegas na UE usam.

4) As empresas continuam sobre-endividadas. Urge portanto aumentar os capitais próprios. Isso quer dizer que as empresas devem crescer procurando sócios e não credores (como a banca). Urge arranjar formas para que as famílias possam participar como sócios das empresas portuguesas.

5) Os últimos anos provavelmente deixaram mazelas: a emigração dos mais qualificados que farão cada vez mais falta para acelerar o crescimento da economia, os projectos de investimento nas empresas e na Administração Pública que não se realizaram por não ter havido os meios, …

6) Portugal está a envelhecer, a economia mundial está a ficar cada vez mais globalizada, e o desafio das alterações climáticas ainda não foi internalizado.

Para o leitor mais assíduo deste blog, nada disto é uma novidade. Já repeti estas ideias várias vezes. Assim como já referi por várias ocasiões o que entendo ser um caminho estreito em direcção ao sucesso. É um caminho pautado por responsabilidade orçamental (limites à despesa, e não só), e por políticas económicas que visam aumentar quer a poupança nacional quer o investimento nacional.

Se quiserem uma estratégia com 3 pês: Poupança, Produtividade, e Portugalidade. O que interessa é simplesmente garantir que os recursos à nossa disposição são bem utilizados. Se garantirmos isso, tudo se encaixará.

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Sobre Pedro G. Rodrigues

Professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, doutorado em economia pela Universidade Nova de Lisboa. Email: pgr.economist@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Crescimento económico, Finanças públicas, Reforma do Estado. ligação permanente.

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