A desinflação e a desigualdade

A desigualdade na distribuição da riqueza é um tema que está na ordem do dia. Quem é que ainda não ouviu falar de Thomas Piketty?

Um dos gráficos mais vistos a este respeito é este do Emmanuel Saez (clique no gráfico para obter a fonte) onde se conclui que, nos Estados Unidos, um milésimo do país controla um quinto da riqueza.

saez

Nos últimos tempos têm havido várias explicações deste fenómeno. Ver por exemplo aqui. Umas das mais populares é entender este resultado como uma consequência natural do sistema capitalista.

Não querendo tomar uma posição neste debate, pus-me a pensar que poderá haver uma explicação relativamente simples. Porque ainda não a vi referida em lado algum, apresento-a aqui.

Como todos sabemos, a inflação degrada o nosso poder de compra. Como tal, é como se fosse um imposto que se aplica ao valor do nosso património. Assim sendo, será que não podemos explicar o movimento em U que acima vemos na figura através da evolução do simétrico da inflação?

A figura seguinte retrata o simétrico da inflação (IPC) nos EUA (ver fonte). Muito rapidamente, os anos 20 e 30 foram marcados pela deflação (taxas de inflação negativas), a inflação acelerou até 1978 (i.e. até ao momento em que Volker tomou medidas para a baixar), sendo que desde então temos vivido em desinflação (redução progressiva da taxa de inflação, mas continuando em terreno positivo). Se não tivesse havido uma política monetária pouco ortodoxa (com o chamado Quantitative Easing) desde a eclosão da crise financeira mundial em 2008-2009 provavelmente os EUA teriam vivido um período de deflação. É curioso notar (veja os segmentos de recta que marquei a vermelho na figura seguinte) que, quantitativamente, os principais pontos de viragem nas duas séries são coincidentes.

infl_us

E será que esta explicação faz sentido do ponto de vista teórico? Pela chamada Regra de Fisher, quando a taxa de inflação excede a taxa de inflação que os agentes económicos esperavam quem perde são os credores e quem ganha os devedores. Nesse sentido, parece-me razoável que entre o pós-guerra e 1978 os Americanos foram sempre surpreendidos com taxas de inflação maiores do que antecipavam. Nesse contexto, onde as rendibilidades reais ficavam sempre aquém do esperado seria de esperar que os maiores detentores de riqueza sofressem relativamente mais … daí a redução na primeira figura.

De forma similar, com a progressiva desinflação desde 1978 (redução das taxas de inflação), a desigualdade aumentou porque sistematicamente a taxa de inflação ficava aquém do esperado e, assim, as rendibilidades reais excediam o esperado.

Com este meu post, não estou a dizer que esta é a única explicação para este fenómeno. Mas que pode ser uma das mais significativas, lá isso, parece-me que pode.

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Sobre Pedro G. Rodrigues

Professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, doutorado em economia pela Universidade Nova de Lisboa. Email: pgr.economist@gmail.com
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2 respostas a A desinflação e a desigualdade

  1. Alfredo Marvao Pereira diz:

    Seria interessante ver estes gráficos para um par de outros países para ver quão robusta/universal a hipótese é mesmo antes de a testar. Que tal a nova base de dados da FFMS sobre desigualdade em Portugal?

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