Mortes nas urgências

red-cross-bandaidsUltimamente, parece que em cada noticiário que se ouve, há um novo caso (ou dois ou três) de um idoso que morreu nas urgências de um hospital. Esta situação agrava-se mais durante o mês de Janeiro – o pico da gripe – com tempos de espera que ultrapassam a dezena de horas. Lembro que, pelo sistema de triagem de Manchester, um doente a quem é dada uma classificação amarela (a terceira mais urgente) deve ser visto num prazo de 60 minutos. São já vários os casos de doentes “amarelos” que chegam a esperar e a morrer … depois de só terem sido vistos 8 e 9 horas depois de terem entrado para as urgências.

Não sendo um profissional de saúde, pus-me a pensar neste problema como economista que sou, i.e. alguém a quem a sociedade pede respostas sobre a boa alocação de recursos.

Será este um problema do domínio da economia? Parece-me claramente que sim.

Analisemos primeiro o problema do lado da oferta. A explicação que mais vezes se ouve para estes larguíssimos tempos de espera e para as mortes que muitas vezes se sucedem (é impossível à partida dizer que o doente não teria morrido se tivesse sido visto mais cedo) é a falta de profissionais de saúde – médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar. A solução avançada? Contratar mais gente. Mas será que há mesmo falta de meios humanos em cada Hospital visado, ou será que o problema é uma deficiente gestão dos recursos disponíveis? Em conversa com alguns alunos meus que trabalham em hospitais, ouço relatos de quatro ou cinco médicos no balcão de urgências, quando no Hospital estão 30 ou quarenta médicos a fazer outras tarefas. Ora, o bom senso ditaria que – em tempos de maior necessidade, entenda-se, em tempos de maior afluência às urgências – estes profissionais fossem reafectados para onde são mais precisos. Se isto for possível, então não há gente a menos – o que há é boa gestão a menos …

E agora, o lado da procura. É bem sabido que recorrem às urgências muitos casos que não exigem a atenção de um balcão de emergências. Falo dos casos de gripes e outras maleitas que devem ser resolvidas em Centros de Saúde ou Prontos Socorros locais que ficam abertos para além do horário normal de expediente. Em linguagem de economista, estas pessoas que afluem às urgências sem necessidade exercem uma externalidade negativa sobre quem mais precisa. E isto reflecte-se nos tempos de espera. Qual a solução? Permitir ao médico que atende a pessoa aumentar a taxa moderadora em 50 ou 100% se entender que esta foi uma “falsa urgência”. Se em vez de pagar 30 EUR numa urgência normal, a pessoa tiver que pagar digamos 60 EUR, da próxima vez que tiver uma gripe vai pensar duas ou três vezes antes de entupir os serviços e estar também a contribuir para os tempos de espera excessivos e as mortes que daí podem advir.

É caso para dizer … ainda bem que o Estado não é responsável pelo circuito da distribuição de alimentos em Portugal. Temo que, se fosse ele o responsável, corríamos o risco de ir a um supermercado qualquer à procura de leite, por exemplo, … e ouvir como resposta: “Ah e tal, está lá dentro no armazém, mas como há falta de gente volte cá amanhã”. Bem sei que me vão dizer que uma coisa é o Lidl e outra são os cuidados de saúde … mas a verdade é que, quando nas caixas há uma grande afluência de clientes, um bom gestor de meios reafecta pessoal para as caixas e a situação resolve-se rapidamente.

Por fim, fiquei a pensar no seguinte: se mesmo com uma melhor gestão de recursos humanos (solução para o lado da oferta) e mesmo com um agravamento das taxas moderadoras para quem não deveria ter recorrido às urgências (lado da procura) a situação não ficasse resolvida, o que poderia ser feito? Uma possibilidade seria permitir a quem tivesse esperado mais do que o tempo máximo exigido pelo método de Manchester (lembrem-se que são 60 minutos no caso de uma classificação amarela) que procurasse uma solução no sector privado, sendo que, a comprovar-se ter sido uma urgência verdadeira (e não uma simples gripe), o Hospital público a quem o doente recorreu inicialmente seria responsável pelo pagamento de 85% da despesa incorrida. O Estado poderia muito bem determinar uma espécie de segundo anel de cuidados médicos a quem poderiam ir caso o primeiro anel (SNS) não estivesse em condições de o atender (mas teriam sempre que ir em primeiro lugar ao Hospital público e só ultrapassado o tempo máximo de espera poderiam procurar uma alternativa). Isto é, o Estado poderia muito bem definir em cada zona uma lista de clínicas convencionadas e deveria ter negociado de antemão bons preços.

Humm … vale a pena pensar nas repercussões desta possível solução (esta é uma boa pergunta para os meus alunos).

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Sobre Pedro G. Rodrigues

Professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, doutorado em economia pela Universidade Nova de Lisboa. Email: pgr.economist@gmail.com
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Uma resposta a Mortes nas urgências

  1. Pedro Aguiar diz:

    Boa noite,
    Como profissional de saúde a trabalhar num serviço de urgência gostei das ideias.
    Algumas já faladas com os meus pares como possíveis medidas a implementar, principalmente o aumento da taxa moderadora quando a urgência não se justifica-se, no entanto, será importante garantir que os CSP estejam preparados para receber os cidadãos, o que muitas vezes não acontece.
    Aproveito para deixar a minha reflexão sobre o tema. https://pensarasaude.wordpress.com/2015/01/15/os-servicos-de-urgencia-a-discussao-que-se-precisa/

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