Que seca …

Austeridade, em grego, quer dizer “secura de boca”.

Como todos, tenho acompanhado as viagens e as declarações do Primeiro-Ministro e do Ministro das Finanças da Grécia, assim como as reacções dos responsáveis máximos da chamada Troika.

Hoje decidi fazer umas contas para determinar se mais austeridade é ou não inevitável na Grécia. Os resultados a que cheguei não são animadores …

Em vez de analisar o que se passa com o país – confesso que tantos zeros deixam-me com a cabeça a andar à roda – reequacionei o problema como se a Grécia fosse um indivíduo bastante endividado.

Os dados mais recentes sugerem que, em média, o Grego deve €38 123, tem um rendimento mensal bruto (i.e., antes de impostos e de contribuições) de € 1 470, e no serviço da sua dívida paga uma taxa de juro nominal média de 7,13%.

Pus-me a pensar que esforço adicional é que este indivíduo teria de fazer (vivendo com menos euros no final do mês dado que esses euros tirados seriam canalizados para amortizar a sua dívida) para que, num prazo de uma década, a sua dívida baixasse dos actuais 216% do seu rendimento anual para o valor de referência na UE, os tais 60%? Esse esforço (medido em %) seria constante ao longo dos 10 anos. Seria como que um imposto. Na prática, é indiferente (numa aproximação de primeira ordem) se os recursos financeiros adicionais vêm de mais impostos ou de menos despesa pública. Note que se levasse menos do que 10 anos a atingir os 60%, então o esforço teria de ser bem mais significativo. Levar mais do que uma década transformaria um ajustamento num esforço de uma inteira geração, o que não me parece socialmente exequível.

E a que resultados cheguei? Vejamos o seguinte quadro.

inevitabilidade

No cenário de base (no baseline), é necessário desviar mais 19,3% do orçamento familiar para ir amortizando a dívida e chegar aos 60% passados 10 anos. Note que aqui estou a assumir que o rendimento do indivíduo cresce (em termos nominais) à taxa de 4,5%, a média à qual a economia Grega cresceu nos últimos 20 anos, cobrindo anos de excessos e de correcções abruptas. Este número é compatível com uma taxa de crescimento real em torno dos 2 a 3%, o que me parece uma hipótese bastante favorável, especialmente tendo em conta a conjuntura actual que se vive na Grécia.

Antecipando os pedidos de alguma análise de sensibilidade, considerei outros cenários (cada vez menos prováveis), onde a taxa de juro é mais baixa e ou há perdão parcial da dívida.

A conclusão, contudo, é que mesmo no cenário mais favorável (ao qual atribuo uma probabilidade muito baixa de vir a ocorrer – i.e., um perdão de 50% da dívida restante, e uma redução para metade da taxa de juro), é necessário um apertar de cinto de cerca de 4%.

É caso para dizer que a parece inevitável que a seca persista na Grécia.

Aos que estão neste momento a pensar que se a Grécia sair da área do Euro e voltar a ter moeda própria conseguiria evitar estes cenários … enganam-se, pois este imposto paga-se de qualquer das formas. Vale a pena lembrar que a inflação é um imposto, com efeitos redistributivos ainda mais desfavoráveis do que um qualquer sistema fiscal de um país da OCDE.

Aos que se interrogam se a deflação melhora ou piora isto … piora e muito. A deflação aumenta o esforço de serviço da dívida porque prejudica os devedores e beneficia os credores que, por sua vez, vêem-se surpreendidos com uma rendibilidade real superior à esperada.

Termino, referindo o que eu acho que a Grécia pode pedir e com o que se tem de comprometer. Começando pelo fim, julgo que tem de se comprometer da forma mais credível possível com um esforço adicional (sendo que estes recursos adicionais podem e devem vir de uma combinação de fontes que incluem o combate à economia paralela e à fuga e evasão fiscais, o combate à corrupção e um sistema fiscal mais progressivo. Se estas iniciativas não forem suficientes, vale a pena dizer que se comprometem com mais cortes na despesa pública e novos aumentos de impostos, mas que a prioridade vai para as fontes que referi). A troco deste compromisso, a Grécia pode pedir à UE um conjunto de medidas que na prática assegurem que o seu PIB cresce em termos nominais na vizinhança de 4,5% ao ano. Este nominal GDP targeting não é novo entre economistas e há várias medidas que podem ser equacionadas.

O caminho é estreito … e com bastante secura de boca, mas é possível.

Sobre Pedro G. Rodrigues

Professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, doutorado em economia pela Universidade Nova de Lisboa. Email: pgr.economist@gmail.com
Esta entrada foi publicada em Crise, Dívida. ligação permanente.

Uma resposta a Que seca …

  1. Jean diz:

    Excelente texto sobre a situação da Grécia, PEDRO.

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