Cuidado: Nem tudo o que parece é

Não é a primeira vez que neste blog falamos de correlação e de causalidade.

O Jornal de Negócios traz-nos hoje na sua rubrica Gráfico do Dia (disponível aqui) uma figura interessante com dados da Comissão Europeia (AMECO) que mostra simplesmente a evolução desde 1986 do número de desempregados em Portugal (em milhares de pessoas). Até aqui tudo bem, não?

Not so fast … Pegam neste gráfico (a escolha do primeiro ano é estratégico porque esta base de dados começa em 1960) e levam o leitor a concluir que desde que Portugal entrou no euro (1999) que o número de desempregados tem vindo a subir. Embora este facto seja indesmentível, está longe de ser consensual que tenha sido a entrada de Portugal no Euro que CAUSOU o aumento do número de desempregados.

Temos que ter cuidado com infográficos desde género que abundam na internet e que são muito apetecíveis para jornalistas e para os leitores em geral, mas que podem conduzir a análises erradas, parcialmente ou mesmo totalmente.

Tive curiosidade em ver como evoluiu o rácio da dívida pública em Portugal (em percentagem do PIB) no mesmo período e usando a mesma base de dados. É o que replico na figura a seguir.

Aqui também concluimos que desde 1999 que o rácio de dívida pública em relação ao PIB em Portugal tem aumentado. Também concluimos que existe uma correlação muito próxima entre os milhares de desempregados em Portugal e o rácio de dívida pública como percentagem do PIB.

Mas será que poderemos inferir daqui que:

a) Foi a entrada de Portugal no euro que fez disparar o rácio dívida pública / PIB?
b) Foi a entrada de Portugal no euro que fez disparar o número de desempregados?
c) É o aumento da dívida pública em percentagem do PIB que causa desemprego?
d) É o aumento do número de desempregados que causa um aumento do rácio de dívida pública / PIB?
e) Provavelmente é mais complicado que isso. Pode haver outros factores subjacentes ao aumento quer do desemprego quer do endividamento público em Portugal.

Da próxima vez que virem um infográfico sexy, lembrem-se que é possível que a conclusão que querem que tiremos não seja a verdadeira.

Por isso: Cuidado! Nem tudo o que parece é …

Em adenda ao post, tenho mesmo de referir algo, mesmo a propósito de nem tudo o que parece é e do facto de correlação não implicar necessariamente causalidade. Refiro-me à visita do Sr. Presidente da República a uma escola de Lisboa que não chegou a concretizar-se. Vamos aos factos: Facto 1. Os alunos formam-se em aglomerado à porta da escola para receber o PR. Estão reivindicativos pela falta de internet, refeitório e outras coisas mais. Facto 2. (parece que é facto, dado que ainda não foi desmentido) Os quatro carros da comitiva do PR são vistos a fazer inversão de marcha perto da dita escola. Agora vamos às especulações: Especulação preferida: O PR estava com medo dos alunos reivindicativos e fugiu! Mas reparem que como nem tudo o que parece é, há outras possibilidades: Possibilidade 1. O PR tem uma dor de barriga e é obrigado a abortar a visita (quem não o faria?). Possibilidade 2. O PR recebe uma chamada para uma reunião com a Troika para uma reunião de renegociação do Plano de Ajustamento Económico e Financeiro. (Quem de nós insistiria em ir à escola em vez de ir a uma reunião muuuuuuito menos importante ainda por cima marcada à última da hora?) Conclusão: Os factos são os factos, mas podem enganar. Como naquelas imagens com espaço negativo, quem liga apenas aos FACTOS (ao que está em preto), muitas vezes não consegue ver a imagem que está mesmo à nossa frente.

Por isso, duvidem, questionem-se, pensem por vós próprios! Não acreditem piamente em ninguém, simplesmente porque é uma pessoa que deve saber ou é alguém com autoridade. THINK!

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Sobre Pedro G. Rodrigues

Professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, doutorado em economia pela Universidade Nova de Lisboa. Email: pgr.economist@gmail.com
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2 respostas a Cuidado: Nem tudo o que parece é

  1. A discussão de correlação versus causalidade é muito importante, mas acho que seria bem mais fácil provar que foi a entrada de Portugal no Euro que CAUSOU o aumento do número de desempregados e na dívida (pública) externa, do que o contrário.
    E também é necessário examinar a causalidade entre o défice (de comércio) externo e o défice (orçamental) interno.

    Bastava um pouco de tempo e de “customs union theory” para mostrar que Portugal sofreu “trade diversion” e que não participou nos “gains from trade”.

    É duro saber, mas é a realidade da divergência entre os países de Eurozone.
    Vejam: http://ppplusofonia.blogspot.com/2011/12/eurozone-crisis-tests-limits-of.html

    Espero ver um bom duelo de análises entre vocês “jovens economistas”.

    • Jorge Bravo diz:

      Porque será que é das poucas vezes que vejo escrito “Portugal sofreu “trade diversion” e que não participou nos “gains from trade”.

      Excelente sugestão essa, do exame da casualidade entre o défice de comércio externo o défice orçamental.
      Mais uma vez o resultado é surpreendente, só que ainda não vi nenhuma publicação do resultado nos médias generalistas, só manipulação informativa.

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